NOTAS DE BAR
Mesa cheia. Copos vazios. Hora de ir embora, “não amigo, não tenho nenhum super-herói escondido na cartola e não tô a fim de cair na próxima balada, mesmo que ela seja como dissestes, da hora”. O menor espaço entre acerto e erro. Quando nego acha que é um super-herói ou que tem um na gaveta pronto pra se tornar seu alter ego. Não, não tenho mais saco pra essa gente, não depois da quarta dose. Ô garçom, capricha no whiskye duplo, sem gelo, por favor. A incoerência que se revela aos borbotões em cada palavra pronunciada baixinho no meu ouvido. Isso é que deve tá alimentando a minha úlcera. Mas quem se importa? Só sei que não confio em ninguém que só sabe falar de si mesmo. Mas quem se importa se agora estou sozinho desse lado da calçada, e tenho andado muito calado, solo, sorumbático? E não é só por essa dor de barriga que consome minhas forças e o meu animo bem devagar, (parece que tenho um monstrinho arranhando as paredes do meu estômago) ou por causa da grana, da falta de grana que já nem é novidade . Quem se importa? O que importa pra mim agora é que não estou, nunca, em silêncio comigo mesmo, se é que assim pensam quando pouco, ou quase nada, falo nas nossas animadas e etílicas conversas antes do dia “nascer feliz”. Um camarada lá de Quixeramobim uma vez me disse: Quem fala demais escuta de menos. E isso não é bom pros negócios." E eu sou um bom ouvinte. Mas quem se importa se nesse exato momento tudo que eu quero é encontrar a porra de um pé sujo do caralho que acolha meu corpo cansado, exausto da labuta, do pouco de raiva que não consigo deixar de sentir, do vazio que insiste em se alastrar e da minha reconhecida incompetência de quase nunca conseguir dizer não. Meninos isso pode matar.
Pé sujo localizado, scoth no copo e a cara fechada do garçom. Sobraram poucos no bar (bar?!). São poucos os que ficam ao seu lado em algumas horas. Preciso tomar a última e ir embora. Mas porque será que é sempre tão difícil ir pra casa depois do último gole? O cansaço, ou o sono, ou o tédio, ou os três juntos já se mostram sem muitos pudores no rosto encovado do chapeiro lá no fundo da cozinha. Um frio de trincar costela vai dos meus cachos ainda molhados pela garoa até o dedão do meu pé, quase congelado dentro do meu velho coturno. Eu já andei sem pressa, agora não consigo mais. Mas quem se importa? Quem se importa com o fósforo que se apaga abruptamente na poça d’agua junto ao meio fio da calçada? Quem se importa com a puta que lamenta a féria do dia e o com o trafica que tá voltando pra casa “abastecido” e isso representa pouca grana (viva) em casa? As conversas não se arrefecem, mas o papo é sempre o mesmo, invariavelmente gira em torno de bucetas, bucetas, bucetas, e EU. “Eu faço, eu posso, eu quero, eu mando, eu sou o cara”. Mas às sete horas da manhã as máscaras já são outras. E o garçom só quer mesmo é que essa corja que ainda resiste aos baldes de água e pinho-sol caia fora. “É porque eu preciso ir pra longe, e já ta bem tarde”, diz ele. Chegar longe. Bem longe. Eu já ouvi isso antes.


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