Notas do Trovão


22/03/2006


   

 

                             "O casamento do céu e do inferno"

                          

                             

                                     ILUSTRAÇÃO: Willian Blake

Escrito por Régis às 9:39 AM
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21/03/2006


OS BONS MORREM JOVENS

 

 

Não nos resta nada pra fazer agora. Talvez tentar encontrar conforto no silencio enquanto a ausência ainda emana um cheiro forte de flores e de saudade. Saudade de quem nunca mais irá voltar é pior porque nunca passa e se alimenta (dia após dia) da cadeira vazia na mesa, das roupas no armário, daquele tênis velho no canto do quarto e do relógio guardado na gaveta junto com o CIC e o RG. Porra, e eram tão jovens. Eram infantes apenas.

 

Um quarto escuro. Camiseta azul e calcinha branca. Uma caixa de comprimidos depois e, pronto, ela deixou de existir. Tentei lhe falar algumas vezes do que eu sabia, do pouco que me contaram, e do muito que eu já senti sobre, solidão, tristeza, vazio, angustia, sobre aquela enorme vontade que às vezes a gente sente de pôr, nós mesmos, um ponto final na tal “história da nossa vida”. Mesmo que essa vontade dura apenas alguns longos 3 minutos. Balbuciei, mas resolvi, muito mais por medo do que por coragem, dizer-lhe realmente o que eu e todos os seus sentiam: Que não estávamos preparados para viver com a ausência dela. Muito menos para administrar o seu espólio de desacertos e de enganos. Como de fato não estamos. Ela não entendeu, não ouviu ou não quis aceitar. Talvez eu não fui muito claro, como sempre, ou distante demais como nunca, pra enxergar o dilúvio que já se instalava naquela cabeça loucamente estranha e instável. Como uma bomba relógio pronta pra implodir. E agora ela está morta. E estamos todos tristes. Bem tristes.

 

Quanto a nós que ficamos, o melhor a fazer de agora em diante é traficarmos encantos e escondermos qualquer sinal de contentamento ou alegria. Sabe como é, numa dessas o céu pode enfurecer-se com nossa euforia e lançar sobre nós bolas de fogo que matam ou correntes pesadas o bastante pra conseguirmos arrastar pelos corredores vazios da nossa exixtência.

 

 

Esse post é dedicado ao Igor e a Micaela, que foram embora cedo demais.

Escrito por Régis às 8:57 PM
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