PORNOGRAFIA, FILOSOFIA E POESIA.
É dessa tríade que eu me alimento. O resto são bijouterias.

Infelizmente não sei o autor da gravura. Desculpem

Contrariando uma senhora que saiu do ensaio aberto de domingo, eu entendo exatamente o que passa pela cabeça de um cara como o Rodolfo Gárcia Vazquéz, meu amigo, sócio e um encenador genial d’Os Satyros. E montar OS 120 dias de Sodoma no momento político-existencial no qual estamos vivendo é mais que apropriado. É necessário. Quem cruza com o Rodolfo na Praça Roosevelt, indo de um Satyros ao outro, sempre apressado, sempre com cara de quem está pensando em coisas grandiosas, (mas também sempre com um imenso sorriso aberto pra quem o cumprimenta, amigo, admirador ou não), talvez nem imagina que ali está um homem de coragem. Um esteta, um artista, sem nenhuma concessão às distorções “midiaticas”. O Rodolfo, não se engane, é um grande cara. GRANDE mesmo. E não se preocupe se ele não abrir o tal imenso sorriso que eu falei acima. Resolvi escrever esse post sobre o Rodolfo por três motivos: 1º.) Trabalhamos juntos, mas quase nunca conversamos sobre ARTE, muito menos sobre a ARTE maior, a VIDA, (que no mundo de hoje tá cada vez mais se apequenando, tá cada vez mais dificil viver com um mínimo de dignidade e o sentido exato de cidadania. 2º.) Eu admiro as pessoas corajosas, e o Rodolfo (assim como o Ivam Cabral) são corajosos como poucos que eu conheço. Os caras tem culhões pra fazerem o que se propõem. Só enxergo mesmo o dramaturgo Mario Bortoloto como exemplo extremo de coragem desse naipe. Por isso admiro os três, por isso sou amigo dos três. 3º.) Revirando meu baú (que não é o do Raul, mas tem um monte de quinquilharias guardadas) eu achei um poema, de uma época que eu ainda achava que seria um poeta, (falo POETA, assim como meus amigos Marcelo Montenegro, Sergio Melo e Ademir Assunção, isso pra não citar deus, Dylan Thomas). Pois bem, eis que lend o poema, não sei porque, imediatamente eu relacionei o tema dos 120 dias..., não tanto pelo sexo, muito mais pela ironia (ou a minha tentativa de), e também pelo sarcasmo com a situação do momento. E estamos falando de 1989, quando lá nos confins cearenses eu já engendrava pra minha vida grandes acontecimentos, imaginando/querendo que meus caminhos que se cruzassem com caminhos de grandes caras. Desde sempre eu busquei pra minha vida uma coisa épica, (sim, eu sou pretencioso), como é épico o teatro que o Rodolfo faz. Acho que eu não tava tão errado assim.

E LÁ NAVE VÁ
Tim, Tim! Vamos brindar.
Brindemos à esperança reduzida a pó, já pra começar.
Celebremos a cultura da mediocridade, a cultura de um deus único. Só.
Brindemos essa grana que não temos, brindemos à grana americana.
Brindemos o american way of life, money, money, money,
More and more, more money, até não poder sair mais de casa.
Brindemos a sensibilidade sob tortura e a “arte” que falece
Brindemos à falta de solidariedade nossa e a fossa que virou essa cidade
Brindemos o amor ao próximo que padece e parece não ter cura
Brindemos à agonia nossa que nasce sob a nossa cor escura
Brindemos à escuridão dos dias e a imersão nossa nas noites de procura
Brindemos ao império do riso sem graça, da fome e da dor,
Brindemos a todos os romances condenados à vala fria do fracasso
Brindemos ao sexo sem amor.
Brindemos as mulheres virgens de afeto,
Aos homens com vertigem do bicho homem, do demasiado humano
Brindemos ao tesão sem paixão, ao sexo sem proteção
Brindemos à destruição humana, brindemos então...
Um brinde a esse fast food de sentimentos
A insônia dos justos e a injustiças dos homens de bem
Brindemos o sono tranqüilo dos nossos algozes e o riso fácil também
Brindemos à infelicidade e a saudade que sentimos de quem está bem perto
Brindemos aos prozacs, aos valiuns e a tudo aquilo que não vale nada.
Brindemos à morte, certeza de quem vive, brindemos o final dos tempos.
O mundo está louco, está todo mudo louco e parece que ninguém viu.