Notas do Trovão


10/01/2008


TEATRO EM SP - 2008 COMEÇA EM ALTO ESTILO

 

 

Reestréiam essa semana (na minha assumida imodésta opinião) três das melhores peças de 2007. Vamos aos fatos e diante dos fatos não existe contra-argumentação.

 

 

Rosa de Vidro

 

 

 

 

Teatro é emoção e nada mais. De Molierè a Beckett, de Boal a Zé Celso, teatro é apenas emoção, “simplesmente” por que é a síntese da vida (ou deveria ser), e ninguém é indiferente à vida, certo? A não ser que esteja morto e ainda não sabe. No teatro você ri, você chora, fica puto, enternecido, desdenhoso, reflexivo. Teatro é pra mexer com as pessoas de alguma forma, pelo menos o teatro que eu acredito. Eu não espero, e não espere também, respostas pra perguntas que não foram feitas. O teatro, e a ARTE de uma forma geral, mostram apenas as perguntas, aponta os caminhos, (segui-los ou não segui-los, eis a questão) e olhe lá. Acredito também que a arte nas suas mais diversas manifestações só vale a pena quando é transformadora, mas pode ser que nêgo não acredite nisso, ta tudo certo. Se o cara vai sair tocado de alguma peça e ver sua vida transformada (abrupta ou lentamente) à partir da arte aí são outros quinhentos e eu é que não me atrevo aqui a jogar pedras na sua cruz. Mas quando uma peça consegue harmonizar com qualidade texto, direção, atuação, iluminação aí as desculpas para as discordâncias serão todas vãs, pra não dizer esfarrapadas. Todo esse prólogo é pra falar do ROSA DE VIDRO, texto (livremente baseada na vida e obra de Tenesse Willians) do meu amigo João Fábio Cabral com a esplendorosa direção do também amigo (eu já falei aqui que só tenho amigos talentosos) Ruy Cortez.

 

O Ruy, pra quem não conhece, tem o teatro no sangue, e quem o vê flanar pelas calçadas e mesas da praça Roosevelt com toda sua fidalguia não imagina que ali tem um garoto de teatro, (sim, garoto, ainda sou um infante e o Ruy é mais novo do que eu), portanto um legitimo representante da nova geração de diretores. Conheci o Ruy em agosto do ano passado quando fui levado pelo Loureiro para ser assistente de direção de ambos na peça A LOUCA DE CHAILLOT, com a deliciosa Cleyde Yácones encabeçando o elenco. Foi empatia imediata, ao menos da minha parte. Mas vamos a peça:

 

 

O João e o Ruy fizeram um trabalho de ourivesaria. Os personagens que os dois nos oferecem são de uma beleza, no sentido mais pungente, que arrepia até os ossos. Tudo ali é de bom gosto, delicado. Eu prefiro não tecer comentários “profundos” sobre a atuação da rapaziada, deixo isso pra quem vive disso, prefiro falar de como me senti durante e depois da peça: A espera de um trem que nunca chegará. Numa chuva torrencial sem guarda-chuva. Assim como Tom (defendido brilhantemente pelo Thales Penteado), Rose (Julia Brobow, guardem bem o nome dessa garota, e não esqueçam seu rosto, ela é danada, ainda ouviremos falar muito dela) e a mãe de ambos, (Vitória Camargo), uma mulher amarga, sozinha dentro de sua tristeza sem aceitar o irremediável. A ruína. Da filha, do Lar, a sua própria. A iminente partida do filho, ele também agonizando entre a necessidade de "voar" e a vontade de ficar e reconstruir o próprio lar e a sanidade de sua irmã. Confesso que pouco prestei atenção, (ou o personagem não teve força pra me pegar) no rapaz que faz o amigo do Tom, interpretado pelo Ricardo Geli. Enquanto a peça desenrolava tudo que eu queria era cuidar de Rose.

 

Só sei que quando a peça terminou em não sabia se chorava ou se ria, chorava pela dor daquela família ou se ria de alegria, orgulho do João, do Ruy e de ver no palco um elenco com uma entrega (não deu pra evitar essa frase/clichê) tão grande. O que eu vi ali no espetáculo ROSA DE VIDRO foi coisa feita por gente grande. O elenco, o autor e o director estão de parabéns, e já mostram que cerram fileiras com quem não quer ser apenas nota de rodapé na história. O que eu tenho a dizer mais? Apenas um muito obrigado por nos apresentar um trabalho de tamanho bom gosto e força. É assim que eu gosto. Vou voltar, e recomendo, vão assistir, sem sombra de duvida a melhor peça do ano que passado.

 

SERVIÇO: 10/01 a 26/01 - ESPAÇO DOS SATYROS UM - Praça Roosevelt

 

 

Escrito por Régis às 4:11 PM
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NATIMORTO:

 

 

Texto de Lourenço Mutarelli, Adaptação e Direção de Mario Bortolotto, com Maria Manuela, Marta Nowil e o grande Nilton Bicudo.

 

Eu já dei meu prêmio Shell/2007 ao Niltinho, é arrepiante a sua atuação, não conheço o Mutarelli pessoalmente, mas me arrisco afirmar que o Niltinho ta mais Mutarelli que o próprio Mutarelli. Pelo menos no aspecto físico ta. Meninos, antes de entrarem em qualquer curso de teatro vão ver o Niltinho em cena e vejam como um ator da nossa geração tem o domínio completo de seu ofício. As meninas também não comprometem, a Manu, como sempre, parece atuar de cima de um pedestal, num palco só seu, com uma luz só pra si (sim, isso é um descarado elogio), A Martinha tem uma participação menor mas não menos importante na história, fazendo seu pouco tempo em cena parecer muito maior. Como leitor voraz, principalmente de HQ’s, e conhecedor da obra do Mutarelli, o Mário soube captar e “imprimir” na montagem toda a atmosfera do cara, pessoas solitárias meio neuróticas, angustiadas. É o mundo bizarro de Lourenço Mutarelli levado aos palcos por quem entende. Vá ver.

 

SERVIÇO: De 10/01 a 07/02  - Quintas, 21:00 hs  - Sextas, meia noite no Espaço dos Parlapatões, Praça Roosevelt, No. 158

 

 

 

 

 

 

 

 

  

 

Assistir uma peça que tem direção (em parceria com o Loureiro) do mestre Fauzi Arap, com um texto também dele já vale encarar o trânsito de São Paulo, as mudanças repentinas de temperatura e o preço de ingresso. E se ainda por cima tiver Caio Blat e Claudia Mello em cena, só posso dizer que é programa pra quem tem bom gosto e que todos os fatores acima já pagam o ingresso.

 

Acho que não preciso dizer mais nada.

 

SERVIÇO: De 12/01 a 02/03, aos Sábados às 21:00 hs e Domingo às 19:00 hs no Teatro Imprensa.

 

 

 

 

 

Escrito por Régis às 2:09 PM
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